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Alcanede
Sábado ,6 Junho, 2020
Entrevistas

Fernando Melo: “Antigamente a medicina era mais humanizada”

O Portal de Alcanede foi esta semana ao encontro de um profissional que leva 53 anos de actividade ao serviço das populações. Natural de Alcanede e com 83 anos mantêm uma actividade invejável. Formou-se como médico em 1958, tendo frequentado as Faculdades de Medicina de Coimbra e de Lisboa. Nesta entrevista, fala de como surgiu a sua vocação, do seu colega Torres Paulo, de Alcanede, das dificuldades de um médico em meio rural e lembra histórias que não esquece. Casado, dois filhos, chama-se Fernando Rodrigues Lopes de Melo ou… Simplesmente, Dr. Fernando.

Dr Fernando 1

 

Portal Alcanede (PA) – A medicina foi sempre a sua maior paixão?

Fernando Melo (FM) – Sim, embora no momento da escolha tenha tido uma hesitação entre a medicina e a engenharia. Duas áreas completamente distintas. Mas, ganhou a vontade de ser médico. Desde miúdo fui sempre muito curioso. Ainda frequentava o liceu e fazia-me confusão porque é que o lagarto andava, porque é que determinado animal se movia daquela forma e então, quando podia embalsamava os animais de maneira a poder investigar melhor. Coisas de miúdos! Não sei explicar, mas sempre tive uma tendência para procurar explicações para além daquilo que via.

PA – Havia algum tipo de incentivo do núcleo familiar para que seguisse a carreira de medicina?

FM – Havia. O meu pai gostava que eu seguisse a carreira.

PA – E Alcanede, é uma paixão?

FM – Naturalmente. Nós sempre nos sentimos ligados à terra onde nascemos. Um emigrante pode ir para fora, mas a sua terra diz-lhe sempre mais qualquer coisa. Comigo não é diferente.

PA – Como vê a freguesia de Alcanede hoje, comparativamente com aquela de 1958?

FM – Temos a Alcanede antes do 25 de Abril de 1974 e a Alcanede do pós 25 de Abril. São coisas incomparáveis. É a noite e o dia! A freguesia tem desenvolvido muitíssimo ao nível por exemplo da habitação, cuidados de higiene e da sua prática, a mentalidade das pessoas. Antigamente faziam-se coisas que hoje eram impensáveis. Mesmo ao nível da medicina surgiam casos absolutamente estranhos em que ficávamos pasmados com o atraso de certas situações que apareciam.

PA – Como eram esses tempos em que, não eram tanto os doentes que vinham ao seu encontro mas, o médico que ia ao encontro deles?

FM – Frequentemente cheguei a levantar-me duas e três vezes por noite. As estradas eram péssimas, caminhos horríveis. Fiquei muitas vezes atolado sem poder regressar a casa na minha viatura. Tinha de voltar de táxi e ir buscar o carro depois. Havia muita dificuldade, sobretudo ao nível das vias de comunicação.

PA – No seu caso, ainda hoje é um pouco assim? Continua a deslocar-se a casa dos pacientes?

FM – Já muito menos. Desde que surgiram os serviços médico sociais o fluxo diminuiu. Embora no inicio destes serviços (antigos postos de saúde), ainda atendi muita chamada fora da hora de expediente. Mas hoje isso já não acontece e é pena que seja assim. Existem pessoas que estão realmente a precisar da nossa ajuda no local, pessoas cheias de febre, com dores e que não conseguem sair de casa. É preciso deslocarem-se e esperar muito tempo pelas consultas, quando as conseguem! Hoje em dia tudo é aparentemente mais fácil, mas desumanizado. Antigamente a medicina era mais humanizada.

Dr Fernando 2PA – A determinada altura, sem grandes meios sofisticados de diagnóstico, como é que fazia?

FM – Tínhamos de literalmente “chatear” a pessoa! Como é que começou? Há quanto tempo tem isso? Há mais alguém na família com este problema? O que fez? O que tomou? Horários, hábitos, etc? Era quase a “inquisição”! Naquele tempo, para se pedir uma análise a pessoa tinha de ir para Santarém e gastar o dinheiro que não tinha! E para pedir uma radiografia!?  Santarém era o destino. Embora não tivesse uma eficácia total, era uma grande ajuda. Hoje, felizmente temos tudo: ecografias, tac’s, ressonâncias, etc. Não há comparação nenhuma.

PA – O peso da responsabilidade era muito maior…

FM – Incutia uma responsabilidade muito diferente. Hoje por exemplo, se tiver dúvidas pode recorrer a um especialista. No meu tempo, existia um médico em Santarém classificado de bom e que sabia de tudo. Podemos dizer que era um especialista de clínica geral.

PA – Partilhou durante anos a sua actividade profissional com outro médico Alcanedense, o Dr. Alfredo Torres Paulo. Que recordações guarda do seu colega de profissão?

FM – Era uma pessoa extremamente trabalhadora. Um trabalhador incansável e verdadeiramente extraordinário. Guardo óptimas recordações. Viveu, tal como eu, uma medicina mais emotiva e intuitiva, em que algumas vezes, na viagem de regresso a casa, ficávamos na dúvida se este ou aquele medicamento poderia ser mais ou menos eficaz. Dúvidas que ainda hoje se colocam a quem está na profissão.

PA – Hoje em dia, tirando nobres excepções, já não existe aquele espírito de olhar para um médico como um amigo, como alguém com quem verdadeiramente podemos contar. A falta de tempo ou o excesso de doentes que fazem parte dos ficheiros clínicos serão a única causa ou é a formação que é diferente?

FM – Acho que depende da emotividade de cada um sentir o outro. É claro que os centros de saúde têm um número de inscrições muito elevado e sendo assim os tempos para cada consulta são muito curtos. Existem tabelas de tempo que devem ser cumpridas. Nunca liguei a isso, eu estive no posto de saúde de Alcanede e cheguei a estar com pacientes uma hora… Logo, alterava tudo. O relacionamento com as pessoas é fundamental. Há pessoas que sentem um alívio extraordinário só com a nossa presença!

PA – Profissionalmente, gostava de ter feito alguma coisa que, por alguma razão, não tenha conseguido realizar?

FM – Não. Nunca tive vontade de trabalhar num grande hospital ou algo do género. Sempre gostei de estar aqui e, na medida do possível, tentar lidar da melhor forma com os doentes. Nem sempre se consegue. Não há médico nenhum de quem não se diga bem ou mal! Estamos sempre dependentes de quem nos consulta.

PA – Onde é que vai buscar a energia necessária para manter a sua actividade?

FM – Não sei. Mas não me sinto cansado! Vou a qualquer lado onde necessitem de mim, sem sacrifício nenhum.

Dr Fernando 3PA – No meio de tanta agitação profissional, como é que ocupava e ocupa os seus tempos livres?

FM – Do meu ponto de vista, a melhor maneira de passar o tempo é a trabalhar. Trabalhar serve-me de distracção. Quando chegou a minha altura de reforma fiquei com a “neura”. Sempre habituado a um certo ritmo não estava a ver isso com bons olhos. Passou-me rápido… Como eu não ia lá, vinham eles cá (os doentes) e a ansiedade acabou por diluir-se. Às vezes faz-me um pouco de confusão, até colegas meus, relativamente novos sempre com a ideia de reformarem-se! Mas que sentido isto faz? Por isso digo, um grande desporto é o trabalho, mas é preciso não andar contrariado.

PA – O apoio familiar foi fundamental nesta sua caminhada?

FM – Sim, muito importante. Imagine o que era recorrentemente sair de noite e deixar a esposa e os filhos pequeninos em casa sozinhos. Muitas vezes, as pessoas aflitas batiam à porta com muita força, já de madrugada e claro, os miúdos choravam. Para a família também não foi fácil, mas houve sempre muita compreensão. Nessa altura ainda podia sair de casa sem medo de assaltos e hoje, infelizmente já não é assim. Cheguei a passar a noite de Natal a trabalhar.

PA – Dr. Fernando Melo, muito obrigado por ter partilhado com o Portal de Alcanede um pouco da sua história de vida…

FM – Eu é que agradeço. Foi uma conversa que tive convosco com muito prazer, obrigado.

Alguns episódios…

Fernando Melo – Por exemplo, antigamente para ir para o Pé da Pedreira tinha de ir primeiro a Valverde e depois percorrer caminhos, só com lajes e lama e com o carro sempre aos balanços… o tubo de escape é que sofria. Era o que havia!

Fernando Melo – Fiz dois partos na minha vida. Um foi na Mendiga e outro em Tremês. Felizmente que se acabaram os partos em casa. Aquilo era impensável. Muitas mulheres de volta da grávida, todas com a sua opinião, a discutirem se era rapaz ou rapariga. As regras de higiene… não existiam. “Olhe, aqueça água quente”, dizia sempre uma “entendida”, nunca faltava uma mulher entendida no assunto, julgava ela! Aquilo era um alvoroço! Há mulheres que ficaram incontinentes para toda a vida porque romperam a bexiga na altura desses partos e muitas crianças que ficaram com lesões cerebrais.

Fernando Melo – Uma vez apareceu aqui um senhor da zona do Arrimal (Porto de Mós) a pedir para eu ir ver uma senhora já muito velhota. A senhora estava deitada num colchão na chamada “casa de fora” (a casa maior da habitação) e olhei para ela e percebi que de facto estava muito mal. Já de muita idade, com coração muito fraquinho e com graves problemas pulmonares. Naturalmente, não dei grandes esperanças à família perante o quadro clínico. Receitei uma injecção e pedi para me dizerem, no outro dia, qual o resultado. No dia seguinte, o mesmo senhor aparece aqui em Alcanede de manhã bem cedo e diz-me: “Então não querem ver que a velha não morreu!” … Era a sogra dele!…(risos).

Fernando Melo – Numa daquelas noites de Inverno, com muito frio e chuva, houve uma vez um senhor que veio pedir socorro por causa da esposa que estava com febre e que morava na zona do Vale da Trave. Eu perguntei se seria mesmo necessário ir de imediato, ao que ele respondeu: “A sua profissão é como a dos tocadores. Tem que aproveitar o trabalho quando ele aparece!” (risos).

Fernando Melo – Há muitos anos, fui chamado para a Barreira da Mata (Serra de Santo António). Veio cá um senhor também a pedir-me para ir ver um doente e acabou por ir comigo no carro. Estávamos quase a chegar e diz-me: “Pode parar. A besta está ali.” Eu pensei: “Mas, o indivíduo está a chamar besta ao doente!?” Não. A besta… era mesmo um animal para cavalgar até ao local onde estava o paciente! Um burro ou uma mula. O carro não ia até lá e o animal era o meio de transporte utilizado naquele caminho. Acabei por ir a pé, dizendo que as pernas aguentavam.

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