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Domingo ,19 Maio, 2024
Entrevistas

Maria Jesuína: “Há uma visão aqui em Alcanede muito bonita”

mjesuina

mjesuinaNasceu a 30 de Janeiro de 1915 no pequeno lugar de Voltas. Há muitos anos residente em Alcanede, cedo conheceu a palavra “trabalho”. Grande parte da sua vida tem sido dedicada a ajudar os outros. De uma fé inabalável, esta senhora de 96 anos não larga das mãos o seu terço e acredita que há uma Nossa Senhora de Alcanede que todos os dias olha por nós. Apesar dos dias difíceis que viveu, considera-se uma mulher feliz e com força para continuar. Chama-se Maria Jesuína e mantêm uma lucidez e capacidade de diálogo invejáveis.

jesuina2Portal Alcanede – Que recordações tem da sua infância?

Maria Jesuína – Foi uma infância muito difícil. O meu pai foi para a América era eu pequenina e a minha irmã (Albertina) ficou na barriga da minha mãe. Ela (mãe) foi também o meu pai, e a Albertina faz de conta que fui eu que a criei, portanto já imagina como foi.

Portal Alcanede – A sua vida foi quase toda passada a trabalhar?

Maria Jesuína – Sempre. Nunca fui mole, fazia tudo e mais alguma coisa. Desde caiar, esfregar, costurar, fazer pão…

Portal Alcanede – Agricultura também…

Maria Jesuína – Não dá para explicar. Desde apanhar azeitona, ceifar, sachar, tudo e mais alguma coisa, graças a Deus. Fui sempre assim. Tinha 10 anos e já ganhava na azeitona a jorna pelo preço (jorna – salário diário) igual aos homens.

Portal Alcanede – Sendo assim, nunca foi à escola?

Maria Jesuína – Não, nunca tive vagar. Além do trabalho, também tinha de cuidar da minha irmã, sendo que uma parte da minha vida foi passada fora, a servir em casa de outras famílias, por exemplo em Alpiarça.

Portal Alcanede – Nesses tempos, apesar de todas as dificuldades, também havia festas, bailaricos. Como é que era?

Maria Jesuína – Sim, havia bailaricos. Eu ia de vez em quando, e uma vez fui com sapatos emprestados. Está a ver como era naquele tempo, e sempre a andar a pé. Quem tinha um burro já era rico! (risos). Oxalá vocês nunca passem por isso, mas isto está a caminhar para o mesmo sítio!

Portal Alcanede – Acha que sim? Tem essa sensação hoje em dia?

Maria Jesuína – Tenho. Tenho porque conheci muita coisa e vivi no tempo de uma sardinha partida para quatro ou cinco pessoas! Não dá para explicar o que eram aquelas vidas, mas hoje, acho que em breve, vamos caminhar para esses tempos difíceis outra vez.

jesuina1Portal Alcanede – Sabemos que é uma pessoa com muita fé. Onde vai buscar toda a sua crença?

Maria Jesuína – A Deus. É ele que me tem ajudado a vencer e a ultrapassar tudo. Tenho passado coisas impossíveis. Não sei se sabe, mas nos últimos três anos já me tentaram roubar 7 vezes! Com a graça de Deus tenho vencido estas batalhas todas. Deus e a Nossa Senhora de Alcanede.

Portal Alcanede – Como assim dona Jesuína?

Maria Jesuína – Há uma visão aqui em Alcanede muito bonita. Na encosta do Monte da Fonte, junto a um pinheiro, único naquele sítio, está lá uma pessoa do meu tamanho e toda vestida de branco. Usa um manto caído para trás e tem as mãos junto ao peito. Não tenho que esconder nada a ninguém. Tive muitos anos sem dizer nada a ninguém, via e calava. Claro que há pessoas que dizem que isto são manias minhas, uma pessoa é velha e de vez em quando leva estas pelo nariz, mas eu não respondo.
Não passa um único dia, em que de manhã, não lhe agradeça a noite que me deu.

Portal Alcanede – Há quanto tempo tem essa visão?

Maria Jesuína – Há cerca de dez anos.

Portal Alcanede – É por isso que está sempre com o seu terço?

Maria Jesuína – Nunca o largo, e quero lá saber que me censurem ou não. Há quem diga que sou mentirosa por causa da visão, não me ralo nada com isso, mas nada mesmo. Nem quero saber quem diz isso. Só Deus nosso senhor é que sabe.

Portal Alcanede – E que recordações guarda da sua irmã Albertina, também conhecida como Ti Albertina?

Maria Jesuína – Muitas e boas. Olhe, para fazer teatro não havia pai para ela! Gostava de fazer bem às pessoas e estava sempre disposta a ajudar.

jesuina4Portal Alcanede – Não é fácil chegar à sua idade e manter toda esta lucidez e boa disposição. Há aí algum segredo que possa revelar aos mais novos? Por exemplo, tem algum cuidado em especial com a sua alimentação?

Maria Jesuína – Trato-me como entendo que preciso de me tratar. Como sopa, isso nunca falha. Por onde passei (em trabalho), por essas casas ricas, a sopa tinha que se comer a todas as refeições. È a melhor coisa que podemos fazer para ajudar o nosso estomago e depois um bocadinho de carne ou peixe, qualquer coisa e muita fruta. Não tenho nenhum cuidado em especial. Faz-me confusão é ver algumas pessoas, que são doentes, e que comem chouriço e toucinho cru! Só me apetece é dar-lhes porrada, penso para mim.

Portal Alcanede – E o que pensa desta mocidade de agora?

Maria Jesuína – Não sei explicar. Penso tanta coisa que não sei como dizer! Quem tem culpa de muita coisa são os pais. Olhe por exemplo, com que direito hoje em dia se sujam 3 pratos por refeição? Antigamente comiam quatro e cinco pessoas no mesmo prato e tudo se criou. Não têm que fazer, senão, não sujavam tanta loiça (risos). Comem a sopa muda-se o prato para o peixe, comem o peixe muda-se o prato para a carne, comem a carne muda-se o prato para a fruta! Não pode ser.

Portal Alcanede – Apesar das dificuldades que passou na vida, é uma pessoa feliz?

Maria Jesuína – Graças a Deus.

Portal Alcanede – Queremos agradecer-lhe a sua simpatia e a forma como nos recebeu para conversar um pouco sobre a sua vida…

Maria Jesuína – Não tem nada que agradecer. Quero que tenha saúde e paz, e o mesmo para todos os seus.

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