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Quarta-feira ,19 Janeiro, 2022
Artigos de Opinião

O Tempo dos Franceses

Era uma vez, no lugar de Alqueidão do Rei, uma rapariguinha que andava a ceifar e tinha por perto um elegante burro preto de pêlo luzidio. Próximo havia uma estrada por onde passavam soldados desorientados e estropiados em fuga da malograda tentativa de cerco a Lisboa, seguidos pelos seus animais de carga cansados e doentes como eles.

invasaoMesmo em tal estado calamitoso impunha-se a determinação de malfeitores cometerem as maiores travessuras a quem se lhes opunha. Indignados pela oposição da jovem à troca do seu lustroso jumento por um outro completamente arruinado, resolveram levá-la também a ela. Houve quem observasse sem se intrometer, porque as armas sempre fazem quebrar algum heroísmo mesmo nos mais impulsivos. Rapidamente a notícia do rapto correu pela aldeia e todos ficaram a saber de um bando de soldados franceses ter levado uma das flores da terra. Uns diziam que era por vingança, devido a não terem encontrado na capela coisa alguma que pudessem saquear, por precaução escondiam-se os bens apetecíveis, outros afirmavam ser para humilhação dos camponeses e ainda quem dissesse que ela se teria apaixonado.

Os pais abatidos pela tristeza; foram tantas as promessas proferidas junto ao penedo, situado entre as Viegas e o Bairro dos Mortais, de onde se avista a capela de Mata do Rei, cujo padroeiro é São João Baptista; tantas as rezas, as suplicas, que, quando parece não haver mais sol a nascer na negra solidão da alma, algo de muito estranho nos enche de esperança.

Uns almocreves pernoitavam numa estalagem em terras francófonas e ouviram com muita curiosidade uma rapariga, já madura, a cantarolar no seu idioma, o português. Foram ter com ela e perguntaram-lhe porque sabia aquelas canções, ao que ela, surpreendida, mas sempre acreditando na sua libertação, amavelmente lhes contou as peripécias da sua vida, inclusive estava ali por a terem trocado por dois cavalos. Os almocreves surpreendidos não se fizeram rogados e imediatamente foram negociar com o dono o resgate daquela sua patrícia. Conseguiram.

Numa brilhante manhã de Abril os almocreves com as montadas de carga pararam junto à casa dos desditosos pais, um deles foi bater à porta, mas não houve tempo para explicações, a jovem mulher saltou do cavalo e os gritos de júbilo eram tantos que a explosão de alegria se estendeu por todo o lugar e, assim naquele deslumbramento, os pais afirmaram fazer cumprir a promessa a São João Batista: oferecer uma bandeira cuja coroa representasse a cabeça da filha e as numerosas fitas dependuradas o seu vestido às riscas quando do rapto. E assim, a festa da entrega da bandeira se repetiu durante muitos anos no dia do padroeiro, em cortejo de ilustres e admiráveis cavaleiros, com a característica particular de ser sempre realizada por promessa de alguém, na maioria das vezes por promitentes de outros lugares que tudo pagavam, incluindo a banda de musica.

Nota: Trata-se de uma história que tem andado de geração em geração na aldeia de Mata do Rei. O primeiro relato escrito é da autoria da Mãe de Américo Martins – Maria Filipe – o qual está na sacristia da capela, sobre a bandeira de São João Baptista.

Texto publicado no âmbito do concurso “ O Tempo dos Franceses”.

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