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Segunda-feira ,16 Setembro, 2019
Artigos de Opinião

Casa de Ferreiros Espeto de Pau – O Ditado Aplicado à ER361

Percorrendo hoje o percurso da estrada ER 361, entre Alcanede e Amiais de Cima, ninguém tem dúvidas das melhorias que vão ser alcançadas pelos trabalhos de requalificação desta via levados a cabo pela Estradas de Portugal, SA: Alargamento da plataforma da via beneficiada com várias camadas de asfalto; boa drenagem nas bermas com valetas cimentadas; recuperação de toda a rede de drenagem existente, com alargamento de pontões; construção de passeios nos aglomerados urbanos de Amiais de Cima e Alcanede, etc.

Mas, nem mesmo o melhor pano está livre de lhe caírem umas nódoas. Como a fotografia ilustra, verifica-se que nos trabalhos de requalificação em curso, nos Amiais de Cima, na construção dos passeios, está a ser utilizado um pavimento permeável à base de cimento. Não tenho dúvidas que o empreiteiro cumpre o estabelecido no projeto. Mas, o que me deixa perplexo é mais uma questão de fundo: Qual o real valor da calçada à portuguesa para a Estradas de Portugal, SA?

A calçada portuguesa é hoje um ícone de Portugal, reconhecido em todo o país e também além-fronteiras. Quem não conhece ou já ouviu falar dos famosos trabalhos dos mestres calceteiros das muitas praças deste país, ou do calçadão da praia de Copacabana, para não falar dos trabalhos mais recentes executados na ásia, nomeadamente em Macau, aquando da transição da entrega deste território à China.

Ao nível interno, são muito raras as exceções em que as autarquias não utilizam a calçada à portuguesa como pavimento nos projetos de requalificação. Existem várias publicações sobre a calçada portuguesa, sendo uma das mais recentes – O “Manual da Calçada Portuguesa”, apresentado ao público nas instalações da antiga Escola Prática de Cavalaria, no dia 10 de dezembro de 2009, em Santarém, cuja publicação foi apoiada pela A.E.C.P. – Associação de Exploradores de Calçada à Portuguesa, evento que contou com a presença de muitas personalidades, autárquicas e da pedra natural portuguesa.

Também existe uma Resolução da Assembleia da República (RAR n.º 40/2003, de 9 de maio) que visa a proteção da calçada de vidraço à portuguesa e suas explorações. No n.º 5 desta resolução recomenda-se ao governo “A difusão nacional e internacional do carácter tradicional, histórico e cultural da calçada de vidraço.”
A calçada portuguesa é pois um nome com valor consagrado, que se difundiu por todo o país e além-fronteiras e está subjacente a uma tradição e a um ideal de moda e de bom gosto à portuguesa.

Para esta questão, importa ainda acrescentar um dado não menos importante. Na região de Alcanede, no limite do concelho de Santarém com o de Porto de Mós, estão referenciadas mais de duzentas pedreiras que representam, seguramente, mais de 80% da calçada de vidraço branco produzida em Portugal. Setor que, como é sabido, está hoje em grandes dificuldades face à crise na construção. Desta forma, a exclusão de calçada à portuguesa do projeto da requalificação da ER 361, traduz-se na aplicação de um pavimento não tradicional nesta região com reflexos diretos na economia local. Tal como diz o ditado: “em casa de ferreiros, espeto de pau”.

Não sei o que pensa a população dos Amiais de Cima e seus representantes relativamente a este assunto. A estrada principal vai ficar com passeios de cimento e as estradas secundárias com calçada à portuguesa, como é o caso da estrada do Cortiçal /Amiais de Baixo.
Mas sei, que quando se iniciar a construção do passeio ao longo da ER361 em Alcanede não poderemos ficar indiferentes a essa situação, porque para além de tudo o que acima já foi dito, acresce o facto de que é uma vila com elevado valor histórico/cultural. A requalificação da ER361 na vila de Alcanede não se compadece com passeios de pavimento em cimento, porque não requalifica, mas sim desqualifica, a via e a vila. Espero que todos tenhamos a sensibilidade para saber avaliar e defender isso.

Portanto, voltando à questão: Qual o real valor da calçada à portuguesa para a Estradas de Portugal, SA? Não sabemos. Não sabemos se os projetistas e decisores desta empresa com capitais públicos, ao não incluírem a calçada à portuguesa no projeto da requalificação da ER 361, ponderaram os valores já aqui descritos. Ou se a decisão se baseou meramente pela diferença de custos entre os dois pavimentos. Não sabemos. Mas creio que os responsáveis pela obra entenderão os pontos de vistas acima expostos e saberão dar o melhor seguimento a esta situação, até porque, ultimamente tem dado boas provas disso.

Luís Ferreira

ER361 Passeios


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