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Terça-feira ,7 Dezembro, 2021
Artigos de Opinião

Uma camisa-de-onze-varas

Este fim-de-semana uma das notícias que a comunicação social mais deu ênfase foi a que Armando Vara (Vice presidente do BCP) está envolvido no processo Face Oculta.
Segundo investigações ainda a decorrer, entre o dia 23 e o dia 25 de Maio deste ano, Armando Vara pediu e recebeu 10.000 € em notas, de um emergente sucateiro (Manuel Godinho), em troca de diligências feitas por Vara com a finalidade de garantir a adjudicação de vários concursos às empresas do sucateiro.

É certo que o facto de ser arguido não significa que seja culpado. Mas a acusação de que Armando Vara pode estar ligado a esta rede tentacular e que visava assegurar negócios com grandes empresas é devastadora para o próprio.
Esta situação leva-me a questionar como é que alguém tão bem remunerado (fala-se em cerca de 40.000 € mensalmente) se sujeita e expõe a este escrutínio por tão pouco.

Vara chega ao Governo em 1995. Primeiro como secretário de Estado (Administração Interna). Depois, em 2000, ascende a ministro-adjunto do primeiro-ministro. A política começa a correr-lhe mal nesse ano. Sabe-se que, enquanto governante, cria uma fundação privada – Fundação para a Prevenção e Segurança – que, escapando ao escrutínio público, organizava campanhas de prevenção rodoviária para o Estado. O escândalo força-o a deixar o Governo.  

É então que graças ao seu brilhante currículo profissional e académico (a única experiência que tinha da actividade bancária era ter sido funcionário administrativo numa dependência da Caixa em Vinhais, no concelho de Bragança, onde nasceu há 55 anos, e com a licenciatura concluída em 2005 em Relações Internacionais na Universidade Independente, a mesma onde Sócrates se diplomou) chega a administrador da CGD. Banco este que pouco tempo depois entra na guerra pelo domínio do BCP, concedendo avultados financiamentos, para que ilustres investidores assumissem o seu comando.

É claro que a sua transição para a administração do BCP é completamente independente desta situação. Vara foi um funcionário tão ilustre que um mês e meio depois de sair da CGD recebeu uma promoção por parte desta instituição.

Este é o retrato de um país habitado por “senhores 10%”, que tem muitas histórias no seu passado mal explicadas, que recebem a comissãozinha por fechar os olhos, passar o papel para o fundo da pilha, mudar a vírgula. Uma amálgama de gente que se vende por vinte tostões com a prévia desculpa de que toda a gente assim faz.

PS. A expressão “meter-se em camisa-de-onze-varas”, hoje pouco usada para significar que alguém está em dificuldades, teve origem em antiga medida inglesa, a vara, equivalente a um metro e dez centímetros. Era o comprimento, determinado por lei, para a camisola que condenados à morte deviam vestir ao subir no patíbulo.

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