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Sexta-feira ,6 Agosto, 2021
Alcanede Educação Entrevistas

Professora Paula Frazão distinguida pela sua dedicação de 24 anos em São Brás de Alportel

O Jornal Sambrasense, de São Brás de Alportel, homenageou recentemente na sua rúbrica “Professor da minha vida” a docente Paula Frazão, natural do Pé da Pedreira, que durante 24 anos viveu intensamente a sua atividade como professora de Educação Moral e Religiosa Católica junto de alunos, familiares e comunidade daquela vila algarvia.

Nesta entrevista à jornalista Isa Vicente, do Jornal Sambrasense, Paula Frazão recorda os seus primeiros tempos de estudante na freguesia de Alcanede, as pessoas que contribuíram para o seu crescimento enquanto docente e os motivos que a levaram a abraçar a Educação Moral e Religiosa Católica, entre outros temas.

Uma entrevista que publicamos na íntegra.

Dados Biográficos- nome/ idade/ naturalidade/ quando é que veio para são brás? / porquê?

O meu nome é Paula Maria Santos Frazão, tenho 51 anos, sou natural de uma aldeia pequenina que pertence ao concelho de Santarém, freguesia de Alcanede, uma zona conhecida pela extração e transformação de pedra. É uma zona que exporta pedra para os quatro cantos do mundo. Mas também em Portugal, nomeadamente no Algarve a Pedra “Mocacreme” e “Relvinha” são bastante requisitadas, exemplo disso é o Marina Hotel, cuja entrada e balcão são abrilhantados por estes dois tipos de pedra, aliás como outros hotéis vizinhos.

Vim morar para os Almargens, com 24 anos, em 1994, por via do casamento. O meu marido trabalhava cá. Comecei a trabalhar como professora de EMRC no ano letivo de 1994/1995, depois do Sr. Bispo do Algarve, D. António Madureira Dias, me ter apelado para que o fizesse, vim mais tarde a saber que o Pároco da minha freguesia lhe havia ligado, para que me colocasse a dar aulas, apesar de eu só ter o 12º ano, conseguido a muito custo e depois de muito esforço, e uma vez que eu tinha vivencia cristã como catequista e líder de grupos de jovens, e segundo ele, o Pe. Diogo, perfil para poder lecionar as aulas de Educação Moral e Religiosa Católica, antigamente Religião e Moral. Porque refiro que o 12º ano foi conseguido a muito custo? Bem, por que frequentei o 1º ciclo até aos 10 anos e depois parei de estudar. Não era obrigatório na altura prosseguir estudos. Vivia numa aldeia muito pequena e não havia transportes públicos, ou muito menos a minha família tinha situação financeira para ter um carro, por isso, fui trabalhar, inicialmente num matadouro de perus, durante 2 anos, levantando-me ás 4h, e chegando a casa perto da 00.00h, naquela época um trabalho rudimentar, manual, sujo, difícil e muito agressivo para a saúde respiratória e física de uma criança de 10/11 anos. Por motivos de saúde deixei de lá trabalhar. Mas como a vida era um pouco difícil, fui trabalhar novamente para uma fábrica de fabrico artesanal de ceiras/alcofas de junco e verga, feitas através da montagem de um tear de 3/4 metros de comprimento por 2 m de largura. Trabalhei na fábrica 1,5 ano. Posteriormente, o tear foi montado numa garagem dos meus pais, onde trabalhei mais uns anos. Estas peças eram de várias medidas e tamanhos e passado algum tempo, juntou-se a mim a minha mãe que produzia os topos. De seguida estas peças eram devolvidas à fábrica original para serem cozidos manualmente e formar belas e trabalhosas alcofas ou ceiras para transportar as compras. Trabalhei em casa neste registo até aos 17 anos. Contudo, o último ano foi a trabalhar de manhã e a estudar à tarde; sim porque quando fiz 16 anos, e depois de muito pensar, equacionar, percebi que aquilo não era o que queria fazer para o resto dos meus dias, tendo em conta as opções. Eu gostava de ser professora! Um dia comuniquei aos maus pais que queria voltar a estudar! Inicialmente a reação não foi muito favorável, mas eu tinha tudo esquematizado na minha cabeça, iria trabalhar no tear de manhã e iria para a Tele-Escola à tarde. O Problema do transporte persistia, mas, entretanto foi resolvido com a contratação de um táxi, por parte da junta de freguesia, para quem quisesse continuar a estudar. Tinha 16 anos e iria começar o 5º ano de escolaridade no regime já referido. Com 18 anos terminei o 6º ano e foi de tal forma produtivo que a minha professora da área das Ciências e Matemáticas, a D. Conceição, me elogiou perante os meus pais fazendo-lhes ver que seria uma pena eu não prosseguir estudos, e aproveitar as capacidades evidenciadas. A aceitação por parte dos meus pais, acredito que por preocupação e algumas dificuldades financeiras também, fizeram com que não fosse fácil convencê-los a permitir que eu prosseguisse estudos, pois isso implicava deixar de trabalhar e estar todo o dia fora, e por isso, gastar e não ganhar, mas eu estava determinada e a D. Conceição também, e sem eu saber foi preparando o terreno, deixando-o “lavrado” para plantar a semente.

Iniciei então um ciclo de 3 anos em Alcanena, 7º, 8º e 9º ano, que terminei com 21 anos e embora a minha vida tivesse sofrido uma alteração no verão de 1990, já que tinha começado a namorar, sei hoje que tudo aconteceu como era suposto acontecer, sem coincidências, já estava matriculada em Santarém, na Escola Secundária Dr. Ginestal Machado, onde viria a entrar no curso Técnico-profissional de Secretariado, e desistir não era opção. Terminei com distinção em 1993. Fiz estágio de 3 meses igualmente com distinção, e sempre acompanhada pelo Professor Guerra da Silva, responsável pelo meu estágio e pela professora Alzira Santos, minha professora de EMRC, que esteve sempre lá, quando precisei, porque não foi um percurso fácil. Durante 6 anos acordava às 6.00h da manhã e chegava a casa sempre depois das 20h, depois de um dia duro e cheio de aulas, e ainda por que, o percurso de transportes públicos era longo e cansativo. Em dezembro de 1993 casei e vim viver para o Algarve em janeiro de 1994. Nessa Páscoa, numa visita pastoral do D. Manuel Madureira Dias a S. Brás de Alportel, falei com este grande senhor e, em setembro de 1994, iniciei a minha profissão de professora, algo que eu sempre me imaginei a fazer, mas só depois dele ter apontado o meu numero de telefone no involucro de uma garrafa de água, que como seria de esperar veio a perder-se, mas Deus tinha planos para mim e em setembro andava o pároco de S. Brás à minha procura, para iniciar as aulas como professora de EMRC.

Como surgiu a paixão pela profissão de professora?

A Professora Alzira Santos foi uma das grandes responsáveis por eu querer ser professora e, de EMRC em particular. Queria que os meus alunos sentissem nas minhas aulas, aquilo que eu senti quando estava nas aulas dela, acolhimento, desabafo, partilha, vontade da próxima aula. Como sempre estive na liderança de grupos de jovens de cariz cristão, passar para a frente das turmas, a partilhar as minhas vivências, sob a forma de conteúdos temáticos, não foi um processo difícil, ingenuamente, para mim foi um processo natural, dava-me bem com os alunos, falava com eles como amiga mais velha e rapidamente passei de 6h letivas semanais, para no ano letivo seguinte ter 18 h letivas, num limite de 22h, que rapidamente conquistei. Ainda hoje estou para saber como alcancei este feito?!…Seguramente, com a ajuda do Espírito Santo. Estava no 2º ano de abertura da Escola Poeta Bernardo de Passos, que abrira no ano letivo anterior, quando cheguei a S. Brás de Alportel, sob a presidência da Professora Violantina Hilário, Maria Eugénia Narra, entre outras. O dia em que me fui apresentar na escola por si só dava uma história que não tem fim…

Há quantos anos leciona?

Leciono desde 1994/1995, com dois anos de interrupção, o primeiro em 1999/2000, por questões de saúde, depois de uma grande reviravolta na minha vida pessoal, o meu divórcio e o segundo em 2006/2007 quando fiz o meu estágio em Psicologia Clinica, Pré-Bolonha, no Gabinete de Acolhimento à criança e ao adolescente da Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, sob a supervisão da Dra. Maria Victor Lourenço. No ano 2008/2009, ano em que defendi a minha tese sobre a dependência do álcool e tabaco em filhos de pais consumidores, apresentei à direção da escola o Gabinete “Cantinho dos Segredos”, que esteve em funcionamento até à minha saída em 2016/2017, exatamente 24 anos depois de ter chegado a S. Brás, gabinete este que foi apoio, para alunos, professores, assistentes operacionais, encarregados de Educação, etc., e sempre sobre a liderança da Professora Violantina Hilário. Passei pelos 24 anos da EB2,3 Poeta Bernardo de Passos, pela Escola Secundária, pela C+S, enquanto as obras decorriam no Externato, que viria a ser a Secundária José Belchior Viegas, pelo Agrupamento Vertical que incluía todas as escolas do 1º ciclo e também a Poeta Bernardo de Passos e finalmente pelo Mega Agrupamento que passou a incluir também a Escola Secundária, designando-se de Agrupamento de Escolas José Belchior Viegas, sempre sobre a Presidência/Direção da Professora Violantina Hilário.

Quantos anos esteve em São Brás?

Estive em S. Brás de Alportel 24 anos, ao longo dos quais fui crescendo como pessoa, envolvi-me pessoalmente em muitos dos problemas dos meus alunos, ouvi muitos dos seus problemas, e dos seus pais/encarregados de Educação. Fui muitas vezes chamada por eles, a casa, para se abrirem comigo e pedirem a minha intervenção em muitas questões familiares, mas também tenho consciência e sem falsa modéstia, que fui o porto de abrigo de muitas crianças e adolescentes que precisaram de mim em vários momentos das suas vidas. Poderia dar centenas de exemplos, que tenho guardados no meu coração e na minha memória, mas não o farei, por respeito à confiança que tiveram em mim. E, porque muitos deles, muitos mesmo continuam a pedir-me conselhos, ajuda, um ombro, ou dois ouvidos. Também cresci muito profissionalmente, mas falarei disso mais adiante.

Que memórias tem dos tempos de professora na nossa terra?

Para além das que já fui revelando ao longo desta reflexão, acima de tudo, os muitos alunos que foram passando pelas minhas aulas, pais e filhos, em muitos casos acompanhei a geração dos pais e também dos filhos, foram milhares de alunos, aqueles que ao longo de 24 anos eu acompanhei, vi crescer, vi singrarem profissionalmente, vi tornarem-se homens e mulheres de família, vi alcançarem cargos de relevo público. Não posso deixar de referir alguns adolescentes e também crianças que partiram para uma outra dimensão, que Deus quis consigo, e foram alguns e, continuam a ser, uns de doença, outros de acidente, outros que não conseguiram suportar tanta dor…

Lembro também todas as atividades que organizei com os alunos para angariam fundos para podermos realizar visitas de estudo em Portugal e no estrangeiro, “S. Brás Fashion”, primeiro no 1º andar do Restaurante Zé Dias, depois no cineteatro, Noite de Estrelas, durante vários anos, Noite dos Namorados, também durante vários anos, a participação em campanhas de solidariedade, com cabazes de Natal, de Páscoa, recolha de bens alimentares na escola, participação nas campanhas do Banco Alimentar contra Fome, o Dia dos Avós, anos e anos seguidos, sempre com um número crescente de participantes, organizar palestras, lecionar Formação Cívica a Adultos, sob a Orientação da Maria Afonso, Lecionar Formação Cívica e mais tarde Teologia na Universidade Sénior, sob a coordenação da Junta de Freguesia. Devo realçar que em todas as atividades em que me envolvi com os meus alunos sempre tive a colaboração das entidades públicas, CMSA, Junta de Freguesia de S. Brás e Alportel, Centro de Saúde, GNR, Escola Segura, CPCJ, comerciantes da vila, entre outras entidades.

A memória mais vívida, pessoal é que ao longo desses 24 anos como professora de EMRC em S. Brás de Alportel, era e sou conhecida por toda a comunidade e sinto sinceramente que me respeitam, não tenho a veleidade de achar que agradei, ou agrado a todas as pessoas, isso é impossível, mas são os meus alunos que sempre me preocuparam, e que sempre quis o melhor para eles e por isso, sempre estive em formação, porque acho sinceramente que esta é uma área em que a Formação é absolutamente imprescindível, porque lecionar EMRC exige ter conhecimentos vários, de História, de Ciências, de Físico-química, das origens da língua portuguesa, etc. Por isso, fiz a Licenciatura em Teologia Básica que complementei com a Profissionalização em Serviço no Ensino da EMRC na Universidade Católica Portuguesa, fiz Estudos Portugueses, pela Universidade Aberta, fiz cursos de formação na UCP, fiz cursos de formação na área da saúde e na área da preparação de atividades, na FormAlgarve e uma Licenciatura em Psicologia Clínica, como já referi, sempre com o objetivo de poder fazer mais e melhor pelos meus alunos, com conhecimento científico para tal. Ainda que o “know how” seja importante, o querer e ter perfil para empatizar com os outros são igualmente importantes. No fundo gostar muito do que se faz!

O que fez seguir o caminho da Religião e Moral?

Já respondi a esta questão anteriormente, mas digamos que Deus me deu uma “mãozinha” na hora certa e no momento certo para lecionar Educação Moral e Religiosa Católica.

Considera esta uma disciplina fundamental para o caminho dos alunos enquanto cidadãos?

Considero sem sombra de dúvida esta disciplina, como uma pedra basilar na educação e formação dos alunos de forma plena. Os conteúdos abordados e propostos pelo Secretariado Nacional da Educação Cristã, que o professor pode gerir consoante a turma e o perfil de alunos que a constitui, acompanha o desenvolvimento desde o 1º ciclo até ao Ensino Secundário. É transversal a todas as disciplinas e aos conteúdos por estas lecionados, sendo que muitos dos conteúdos de EMRC são lecionados em interdisciplinaridade e permitem ao aluno ter várias perspetivas do mesmo tema, permite-lhes ainda treinar uma valência tão essencial ao seu desenvolvimento integral; a capacidade de reflexão, a capacidade de se questionarem, de serem críticos, fazerem a introspeção que lhes permite conhecerem-se melhor e aos outros também, um tempo que lhes permite abordarem temas que não fazem noutros contextos, respeitando as diferenças e pensarem por si próprios, decidirem por si próprios. Permite-lhes olharem o mundo pelos seus próprios olhos e não apenas sob o olhar dos outros que muitas vezes lhes é imposto. São abordados temas como a Dignidade das crianças, a amizade, Ser bondoso, nas faixas etárias mais novas, passando por conhecer as dimensões da pessoa, a natureza e a forma como a devemos tratar, a adolescência, as origens do mundo e da Humanidade, as religiões monoteístas e politeístas, o amor, a dignidade humana, o projeto de vida, a relação com a espiritualidade, a política, a ética, entre outros temas igualmente importantes para o desenvolvimento humano e para uma cidadania que permita olhar os outros como nossos pares e respeitá-los como tal, sem perder o espirito critico ou a solidariedade, valorizando só afetos, a partilha, etc.

Considera que esta disciplina deveria ser obrigatória?

Não! Esta disciplina deve continuar de oferta obrigatória, mas de frequência facultativa, cada Encarregado de Educação ou o próprio aluno, se se empenharem na educação e formação dos seus educandos ou se quiserem crescer harmoniosamente devem procurar saber um pouco mais sobre a disciplina e primeiro que tudo perceber a diferença entre a catequese e a EMRC, uma não substitui a outra, muito pelo contrario, cada uma tem o seu lugar e cumpre o seu papel particular, o único ponto onde se encontrar é na defesa dos Valores Cristãos, e dado que somos uma civilização oriunda dos valores judaico-cristãos, devemos ter a noção que, o nosso lugar e a nossa identidade enquanto povo está bem definida e, segundo porque, como se trata de uma disciplina de orientação católica cristã, não fazia sentido que alunos de outras confissões religiosas fossem obrigados a frequentar uma disciplina que não corresponde à sua matriz religiosa. Embora, a prática me tenha já colocado na sala de aula, alunos de outras confissões religiosas que inicialmente vão por curiosidade ou, porque os colegas dizem que é “Fixe”, e depois prossigam o seu percurso escolar, optando pela matrícula na disciplina, falo de outras vertentes do cristianismo, como de crianças muçulmanas, entre outras.

Antes de terminar quero agradecer do fundo do coração e com uma lagrima no canto do olho, o facto de me terem mencionado tantas vezes, como “o professor da tua vida”. Obrigada!! Quero acreditar que estas indicações foram feitas porque, em algum momento das vossas vidas toquei o vosso coração. Quero agradecer também a todos quantos tornaram o meu percurso profissional e pessoal em S. Brás de Alportel, como uma parte da minha vida, inesquecível e memorável, fiz amizades para a vida, entre colegas e alunos, e não foi uma UTOPIA aquilo que vocês me deram, sei que aqueles que foram meus alunos, ou aqueles que apenas me iam visitar à sala, serão daqui a 100 anos, homens e mulheres de princípios e valores que farão deste concelho um concelho de relevo no panorama Algarvio, nacional e internacional, porque vocês andam por aí. E estão a marcar pela positiva, os locais e as pessoas por onde passam. Aos que a vida tem sido uma má “madrasta”, não desistam, é sempre possível corrigir o caminho que parece ser o predestinado, mas nós, vocês, têm uma palavra a dizer, no futuro das vossas vidas, não desistam da vida, não desistam de vocês!!. Eu não fiz nem faço tudo bem, mas no final do dia faço a minha introspeção e tento todos os dias fazer melhor! Porque, desistir nunca foi o meu lema!

Um abraço no coração de todos e cada um de vocês, alunos, miúdos e graúdos, pais, avós, comunidade em geral!!!

A professora e amiga Paula Frazão.

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