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Sábado ,8 Maio, 2021
Artigos de Opinião

Património Construído do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros

Estando a freguesia de Alcanede parcialmente integrada no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, lembrei-me de escrever sobre alguns dos aspectos que considero mais relevantes do património construído destas serras, sendo a pretensão deste artigo alertar para a sua importância, em termos de salvaguarda e valorização, uma vez que é um legado que nos cabe hoje preservar para as gerações futuras e um recurso endógeno que pode ser um factor fundamental para o desenvolvimento económico sustentável desta região e que ainda se encontra muito por explorar do ponto de vista económico.

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros possui um património cultural bastante rico e diversificado, onde podemos observar aspectos da humanização da paisagem que remontam à pré-história. À primeira vista julgamos que as características particulares desta paisagem são semelhantes em toda a área do maciço calcário estremenho mas, num olhar mais atento, verificam-se diferenças originadas por múltiplos hábitos seculares que passaram de geração em geração até aos nossos dias e pelas diferenças dos materiais que cada região dispõe como matéria-prima.

O património construído traduz-se num vasto conjunto de construções, de tipologias distintas conforme a sua localização se encontra marginal ou no interior da serra, assim como, consoante o tipo de calcário em presença. A singularidade da paisagem com uma estrutura altamente compartimentada por paredes de pedra seca, a habitação e todo o património construído associado à água, assume especial relevância, tanto pela sua singularidade como pelo facto de, praticamente, ser único a nível nacional.

A compartimentação da paisagem

A singularidade da paisagem, natural e humanizada, é um, de entre muitos aspectos, que a individualizam relativamente às áreas circundantes. As paredes de pedra solta, são, porventura, a melhor “imagem de marca” que é tida pelo visitante que percorre as serras de Aire e Candeeiros.

À medida que se deu a colonização da serra, o Homem, de forma a aumentar a área agrícola, para cultivo ou para pastagens para o gado, a população do maciço, numa acção secular, arroteou, despedregou e plantou (olival) terrenos incultos, de tal modo que a paisagem hoje assume um aspecto altamente compartimentada, onde, por entre labirintos de chousos e serrados, delimitados por paredes de pedra seca, encontramos um património construído muito particular, associado à organização do espaço e gestão da pedra, como são: os marouços, as casinas, as pias, etc.

Os aglomerados rurais

O povoamento do Maciço Calcário Estremenho é consequência duma evolução histórica longa, em que as diversas áreas do Maciço Calcário Estremenho e o território envolvente interagiram entre si (Abreu, D., 1991).

O resultado é a coexistência de várias situações distintas. Na preferia, um povoamento intenso e activo, disperso nuns sítios e concentrado noutros, raramente situados a mais de 200 metros de altitude, baseado na abundância de água e na relativa facilidade de comunicações, que permite o estabelecimento de uma agricultura produtiva (na “Ribeira”) ou de floresta (no “Pinhal”), (Abreu, D., 1991). Enquanto o povoamento da serra é misto, concentrado em pequenos aglomerados “os Casais”, localizados em depressões agrícolas (covões).

A implantação deste tipo de aglomerados é marginal aos terrenos agrícolas, numa lógica onde a protecção do solo agrícola é praticamente total, dada a sua escassez na serra.

O tipo de construção é de uma arquitectura simples, em pedra, com casas maioritariamente de piso térreo (em núcleos urbanos implantados em encostas e em núcleos de maior dimensão, surgem pontualmente casas de dois pisos), de planta rectangular, de uma ou duas águas, onde a originalidade e a diversidade arquitectónica, é quase sempre, definida pela implantação dos anexos acessórios à habitação (cómodos de gado, palheiros, arribana, cisterna, forno, lagar, etc.), resultando no conjunto uma arquitectura do tipo casa pátio.

O tipo de arquitectura caracteriza-se pela presença de um vasto conjunto de pormenores arquitectónicos, em alguns casos, geograficamente localizados, dos quais se salientam: as cisternas e as caleiras para a recolha de águas, as chaminés, as pedras da era, as eiras e as covas do bagaço.

Património associado à água

Os recursos hídricos de superfície são escassos no interior da serra, dada a natureza calcária da rocha, pelo que a paisagem cársica impõe uma forte personalidade à serra, quer pelas particularidades dos aspectos naturais, quer pela singularidade dos usos e costumes da sua população. O papel da água, é assim, determinante na evolução de todo o povoamento, pelo que, nos escassos locais onde existe, está sempre associado um valor patrimonial e cultural a preservar. São disso exemplos muitos fontanários e algumas lagoas. Fora destes locais, o homem socorre-se de um conjunto diversificado de processos e formas para a obter, quer ao nível do solo, quer ao nível atmosférico.

As pias e cisternas, como reservatório para conservação da água, são um elemento de importância vital nas aldeias e no campo. Elas constituem peças importantes da arquitectura rural, variando a sua forma de acordo com o local de construção, as posses financeiras e o gosto do proprietário. As pias, consistem em pequenas cavidades ou reentrâncias em rochas foram aproveitadas através da sua impermeabilização, em muitos casos possuem cobertura ao nível do solo e, à sua volta, a rocha é limpa servindo de espaço colector das águas pluviais – o aguadeiro. Nas povoações a recolha da água é assegurada pelos telhados, através de caleiras a água é conduzida até à cisterna cuja localização é geralmente no pátio ou no alpendre.

Em termos arquitectónicos existe uma grande diversidade de tipologias, sendo as mais relevantes as situações de cobertura em laje, sendo as próprias vigas da estrutura de suporte igualmente em pedra. A sua importância era reforçada com certos elementos decorativos ou símbolos religiosos invocando a protecção.

Na Mendiga e em Serro Ventoso, em meados do século XX, foram construídas duas cisternas de grande dimensão, conhecidas localmente por “ barragens ou telhados de água”, tendo como base o aproveitamento das águas pluviais para abastecimento de água da comunidade. O seu funcionamento ainda se mantém na actualidade, possuindo estas duas obras notáveis grande valor arquitectónico e cultural.

Moinhos de vento
Os moinhos são testemunhos de um passado recente de uma economia rural que vigorou e que ainda subsiste na serra em algumas regiões.

O seu declínio deu-se à medida que as novas fontes de energia e tecnologia tornaram a sua utilização obsoleta, como que antecipando toda a decadência de um mundo rural que se verifica actualmente.

Desses tempos idos restam as suas grossas paredes de pedra que teimam resistir ao tempo. Não sucedendo o mesmo aos “moinhos de Pau”, de construção em madeira, que muito embora fossem em menor número e em quantidade crescente à medida que nos dirigimos para o Norte do Maciço Calcário, existiam lado a lado com os seus “primos” de pedra, conforme testemunham as bases em pedra onde estes assentavam e as memórias dos moleiros que neles trabalharam.

Pela sua localização constituem elementos marcantes na paisagem, assumindo, por isso, um elevado valor figurativo.

Nos últimos anos temos assistido à recuperação, pelo seu valor carismático e didáctico, e à reconversão dos mesmos, numa vertente de alojamento.

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