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Quarta-feira ,19 Janeiro, 2022
Artigos de Opinião

Ó Maria já lá vão os Franceses

“Ó Maria já lá vão os Franceses…”
Esta é uma das tantas histórias que me ficaram na memória, histórias de uma bisavó que se sentava à lareira nas noites de Inverno e que nos transportava no tempo, embalados por memórias, umas suas, outras que herdou de outras lareiras. Histórias que eu podia ter escrito, se na altura que as contou eu soubesse escrever. Não sabia. Mais tarde quando aprendi, não me lembrei de o fazer a tempo de evitar que algumas se perdessem num qualquer cantinho da memória. Infelizmente a autora já não estava entre nós para as repetir.

Nascida em 1906, a avó Estrudes (Gertrudes) , como lhe chamávamos, contava que a sua avó lhe contou que no tempo que a sua mãe era rapariga, os franceses chegaram as estas serras (Pé da Pedreira) montados em cavalos, roubando tudo o que encontravam e abusando das mulheres, fossem elas solteiras ou casadas.

Para fugir a esse tormento as mulheres da aldeia, numa noite juntaram-se e abrigaram-se numa lapa (espécie de gruta pequena comum no Maciço Calcário Estremenho), ficando ai prisioneiras por sua própria vontade, na esperança que o Franceses se fossem embora. Aí passavam os dias saindo à noite em busca de comida, que segundo a minha bisavó, dito pela sua avó, que lhe tinha dito a sua mãe, na maior parte das vezes só encontravam o resto do milho que os cavalos dos Franceses deixavam.

Numa dessas incursões nocturnas na busca de alimento, alguma delas deve ter sido vista e tendo sido seguida, denunciou sem querer, o esconderijo. No outro dia de manhã, um francês astuto já sabendo do local e com alguma facilidade no português, gritou à entrada da lapa: “Ó Maria já lá vão os Franceses…”, havendo com certeza mais do que um Maria lá dentro, daí a alguns minutos foram surgindo rostos de mulheres, que apanhadas sem hipótese de fuga, foram usadas (como dizia a minha bisavó) durante toda a estadia dos estrangeiros. Contava ela no final da história, com uma espécie de orgulho, que embora se tendo aproveitado das mulheres durante tanto tempo, nenhum deles conseguiu deixar descendência. Sobre os homens da aldeia a minha bisavó nunca falou e eu sinceramente nunca me ocorreu perguntar.

Ana Luis, bisneta da Gertrudes da Conceição, mulher serrana, mãe de 6 filhos e da qual muito me orgulho de ter conhecido.

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