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Sábado ,19 Junho, 2021
Alcanede Ambiente

Por Luís Ferreira: O declínio da biodiversidade na freguesia de Alcanede e o livro “Uma Vida no Nosso Planeta” – de David Attenborough

Acabei de ler o livro do Sir David Attenborough sobre o título “Uma Vida no Nosso Planeta – O meu testemunho e a minha visão para o futuro”, recentemente publicado pela editora Temas e Debates. O conteúdo do livro alerta-nos para o declínio em espiral da biodiversidade e o reflexo das consequências disso no equilíbrio do planeta Terra. Eu, que que faço registos de biodiversidade há mais de três décadas nas serras de Aire e Candeeiros, partilho aqui o meu testemunho de que este declínio está também a ocorrer em larga medida na freguesia de Alcanede.

Quando falamos de impactes à escala global, nenhum local da Terra está imune aos seus efeitos. Em Alcanede, como resultado das alterações climáticas, temos assistido nas últimas décadas a um aumento dos períodos de seca prolongada e vagas de calor com temperaturas acima dos 40oC, com graves consequências na saúde humana e na produtividade agrícola. Ao nível da ocupação do solo, substituímos as nossas florestas autóctones por monoculturas de eucalipto, transformando uma paisagem biologicamente mais diversa por um deserto verde. Passamos a produzir os bens agrícolas e de pecuária de forma mais intensiva, abandonando as práticas tradicionais, e, a consequência disso, é uma perda de biodiversidade. Na fauna, quando comparo registos de observações do século passado nos meus cadernos de campo com observações recentes dos últimos anos, nos mesmos locais, verifico que deixei de observar na freguesia de Alcanede, aves como: o Picanço-barreteiro (Lanius senator) e o Chasco-ruivo (Oenanthe hispanica), localmente conhecido por Estringerna. Mas, o que me tem impressionado mais nos últimos anos foi a redução significativa da abundância de espécies que eram comuns ou muito comuns: conseguir observar hoje um Coelho (Oryctolagus cuniculus), uma Lebre (Lepus granatensis), uma Rola-brava (Streptopelia turtur), uma Cotovia-de-poupa (Galerida cristata), uma Tordoveia (Turdus viscivorus), um Cuco, (Cuculus canorus), uma codorniz (Coturnix coturnix), uma Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax), uma Mouchela (Otus scops), entre outras, é uma grande sorte, porque o número dos efetivos das suas populações são hoje escassos. Para se ter uma ideia da brutalidade das diferenças que ocorreram num período de três décadas dou dois exemplos: na década de 1990 percorria caminhos na freguesia de Alcanede com uma viatura 4×4 onde se observavam coelhos às dezenas num só Km e não se podia andar a mais do que 10 km/h para não os atropelar. Um outro exemplo é o da caça ao tordo, no mesmo período, no Vale da Trave, existiam bandos destas aves que pontilhavam o céu de negro, para grande júbilo de centenas de caçadores que os caçavam. Nessas alturas, durante o período da manhã, tenho registos de gravações onde se contam mais de 60 tiros por segundo na prática desta atividade. Imaginar cenários com estes que descrevi no presente não passam de miragens, os céus estão limpos de bandos de aves, nas florestas e nos campos a contemplação da natureza é uma sensação mista de tranquilidade e de assombramento, pela ausência dos cantos das aves, do zunido dos insetos, enfim, da azáfama da vida selvagem. A extinção de animais selvagens sempre ocorreu ao longo de gerações na região de Alcanede, com os zebros, os ursos, os veados e os lobos, mas acentuou-se de forma mais grave nas últimas décadas. Este é um retrato do que estamos a deixar para as gerações futuras, uma reedição mais gravosa da “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson, o livro publicado pela editora Houghton Mifflin em Setembro de 1962, que pôs em evidência o problema da morte da vida selvagem e a contaminação das cadeias tróficas pelos pesticidas, designadamente, o DDT, e que originou o grande movimento ambientalista à escala mundial.

Este livro foi uma oferta dos meus filhos e teve um grande significado para mim. Por um lado, é um agradecimento deles por levar grande parte da minha vida, profissional e cívica, dedicada ao ambiente. Por outro, pelo tema que é, não deixo de ver nesta oferta também uma chamada de atenção intergeracional, onde a geração mais nova mostra à geração mais velha a forma como a humanidade tem vindo a usar os recursos do planeta de forma desregrada, bem como as consequências dessa irracionalidade à escala planetária. Uma herança que, se nada mudar, não augura um bom futuro para as gerações mais novas.

Sir David Attenborough é um naturalista inglês nascido em 1926, tem agora 94 anos de idade, passou a sua vida a entrar-nos pela casa a dentro por o pequeno ecrã com os seus maravilhosos programas de história natural da terra, da BBC. Quem não se lembra dos documentários da “Vida na terra”, “Planeta vivo”, “O Planeta azul”, “Planeta terra”, “A vida privadas das plantas”, “A vida das aves”, entre tantos outros.

Este relato de Sir David Attenborough é uma prova viva de quão rápidas e profundas são as alterações induzidas pela atividade antrópica à escala global durante o percurso da sua existência. Alerta-nos para a verdadeira tragédia do nosso tempo: o declínio em espiral da biodiversidade está a contribuir para a desregulação do equilíbrio do planeta, em cadeia, como peças de um grande dominó. Por isso, deixa-nos neste livro: o seu testemunho de como a humanidade chegou a este ponto, assim como, uma visão de futuro para corrigirmos a nossa trajetória de vida na terra, se agirmos já. É um legado sobre o qual não podemos ficar alheios, quanto mais indiferentes. Está em causa o futuro da humanidade, as nossas vidas e a dos nossos filhos.

Segundo dados do livro, em 1937, a população mundial era de 2,3 mil milhões de pessoas, o dióxido de carbono na atmosfera era de 280 partes por milhão e as áreas naturais que restavam correspondiam a 66% dos biomas da terra. Em 2020, a população mundial é agora de 7,8 mil milhões de pessoas, o dióxido de carbono na atmosfera é de 415 partes por milhão e as áreas naturais que restam são 35% dos biomas da terra. Este é um retrato muito simplificado do ritmo de crescimento da atividade humana na terra e dos seus efeitos, nos últimos 83 anos. Pensar que o crescimento da humanidade é perpétuo num planeta com recursos finitos tem sido o nosso maior erro. Crescemos à custa do mundo natural pensando que o poderíamos fazer como espécie à parte das leis regidas pela natureza. Agora somos apanhados de surpresa ao sermos confrontados com as consequências dos danos que causamos à Terra, designadamente ao mundo vivo.

A Terra é como um ser vivo complexo em que tudo está interligado, o Homem ao interferir com a natureza de forma significativa acaba por provocar alterações em partes deste sistema, transformando todo o equilíbrio do mesmo.

Sir David Attenborough dá-nos uma visão do caminho a percorrer: é preciso ver o desenvolvimento da nossa sociedade mais além do que o crescimento do PIB; pensar em mudarmos para energias mais verdes; ocupar menos espaço físico, criando eficiência e racionalidade nas nossas atividades; recuperar a natureza na terra e no mar; viver estilos de vida mais equilibrada e abrandar o crescimento da população, através da ajuda às populações menos desenvolvidas para que possam estabilizar as suas taxas de natalidade.

Ao ler este livro fiquei com uma visão mais clara da que já tinha sobre o problema da pegada da humanidade no planeta Terra, porque o Sir David Attenborough apresenta de forma quantificada e objetiva, com exemplos concretos, frequentemente observados e por si vividos, e sempre tendo por base a sustentabilidade ou a insustentabilidade das nossas ações em comparação com as leis do mundo natural, de que se rege a natureza. Acima de tudo, fiquei com uma visão mais integrada das soluções para este problema, do caminho que a minha geração e as gerações seguintes tem que tomar e percorrer, à escala global, sob pena de a humanidade, tal como a conhecemos, ficar em risco de colapso. Disse bem, a humanidade e não o planeta Terra, esse ade reagir, como sempre o fez ao longo da sua evolução, em consonância com as leis da física, com maior ou menor catastrófismo para a vida na Terra.

Esse caminho, em parte, já foi encetado pela humanidade, pelo menos numa boa parte que diz respeito ao mundo ocidental, tanto ao nível do discurso político, como ao nível da implementação de soluções tecnológicas que vão nesse sentido: o caminho da transição energética, da economia circular, do combate às alterações climáticas, da perda da biodiversidade, etc. Mas, estamos ainda no início e muito falta fazer. No final, fiquei com a certeza de que o nosso maior problema é o tempo. O tempo que urge e é necessário para fazer esta transição, sem o agravamento do problema de forma irreversível. As soluções já existem o que falta é pô-las em prática à escala local, regional, nacional e global. Mas, porque qualquer processo de mudança é acompanhado sempre de uma certa resistência, é preciso que o sistema seja sujeito a uma pressão para vencer essa inércia: Ora, na minha opinião, essa pressão tem que ser acima de tudo uma causa cívica, porque é no grosso da população que mais se vai sofrer com as consequências de um mundo ecologicamente desequilibrado; tem também que vir necessariamente das gerações mais novas, que são as que vão ficar com o futuro hipotecado, e de todas as pessoas, em geral, que, como eu, estão preocupadas com esta problemática. Essa pressão cívica tem que ser grande para desencadear um processo de “bola de neve” imparável, obrigando os poderes públicos e a economia a ajustar-se mais depressa a essa nova realidade.

Temos que agir já. Pois de nada valerá trabalhar uma vida inteira para melhorar a nossa qualidade de vida, se no futuro não existirem as condições para a usufruir.

Luís ferreira, 13.12.2020

Foto: Luís Ferreira (Orquídea)

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