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Artigos de Opinião

Mensagem para Quaresma 2010

1. A Páscoa referência da vida cristã

Para os que procuram renovar as suas vidas, a quaresma é um período de grande riqueza espiritual, um “tempo oportuno para a nossa salvação”, como diz a liturgia.

Prepara-nos para viver a Páscoa, coração da nossa fé e referência fundamental da vida cristã. De facto, a entrega de Cristo na cruz por nós e a Sua vitória sobre o mal e a morte pela ressurreição é o acontecimento fundamental do cristianismo que deve marcar e transparecer na nossa existência, pois através do Baptismo tornamo-nos participantes da vida nova do Senhor Ressuscitado. A vida baptismal, porém, é um caminho laborioso a percorrer ao longo da nossa peregrinação terrena. Desenvolve-se e aperfeiçoa-se no Crisma e na Eucaristia e desabrocha na vida nova em Cristo que convida a renunciar ao mal e a progredir na comunhão e na configuração com o Senhor.

Podemos, pois, entender a quaresma como um percurso de conversão que nos aproxima da luz e da santidade de Cristo Ressuscitado. Se a Sua luz penetrar mais profundamente na nossa vida e nos transformar, então poderá, através das nossas obras, resplandecer mais visivelmente no mundo: “Brilhe a vossa luz diante dos homens”. Venho, pois, convidar todos os queridos diocesanos de Santarém para viver com fruto o santo tempo da quaresma de 2010 e apresentar algumas sugestões com essa finalidade.

2. Fortalecer a identidade

Levando-nos a viver o centro da nossa fé, a quaresma ajuda-nos a fundamentar a identidade cristã num ambiente de confusão e de relativismo. À luz da Páscoa, concluímos que acreditar na ressurreição é acreditar na vitória da vida que passa pela cruz, na capacidade de conversão do coração humano, na força da bondade, na possibilidade de revestir a santidade que resplandece no rosto de Cristo. Quem vive a fé cristã participa da vitória de Jesus sobre o mal, no triunfo da justiça, do amor, da esperança. Tem consciência de que essa vitória exige renúncia e combate contra as forças da mentira, do erro, da injustiça, do egoísmo, da ambição e da inveja. O crente vive no mundo mas não se deixa guiar pelos critérios do mundo. Segue antes o caminho do Senhor e luta contra a “escravidão da corrupção para alcançar a liberdade na glória dos Filhos de Deus” (Rm 8, 21).

3. Vencer os impedimentos

Para iluminar a nossa consciência acerca dos desvios para que todos somos tentados e dos impedimentos que deparamos no percurso para liberdade dos filhos de Deus, o tempo quaresmal apresenta-nos, logo no primeiro domingo, as tentações que Jesus enfrenta no deserto. Representam a força do mal que nos desvia e dificulta no caminho do Senhor: a dependência do consumo, da vaidade, da ambição do poder. São o espelho das tentações de todos os tempos, das nossas também.

No ambiente de permissivismo que hoje se respira pode-se ignorar o apelo do mal e viver ao sabor das inclinações naturais e dos valores que a sociedade acha modernos. Quem segue os seus próprios apetites, interesses e propostas publicitárias, acaba por diluir a distinção entre bem e mal e corre o risco de se deixar escravizar pela corrupção, como alertava São Paulo no texto atrás citado. Notamos como muita gente, que se julga livre por fazer o que lhe apetece, acaba por tornar-se dependente dos bens materiais, do politicamente correcto, da fachada exterior de êxito ou de moderno, dos próprios caprichos, etc. Na verdade, não progredimos no caminho de Cristo que conduz à vida em plenitude, se não tomarmos consciência da força do pecado e não nos fortalecermos com os exercícios espirituais, como Jesus no deserto.

4. Fortalecer os ritmos de vida cristã

Acompanhemos, na quaresma, o retiro de Jesus no deserto e procuremos na nossa vida maior recolhimento, fugindo do ruído e da dispersão e encontrando momentos para a reflexão da Palavra de Deus. Recomendo, nesse sentido, um tempo semanal mais prolongado para a escuta orante da Bíblia, através do chamado “Retiro popular” para o qual foram publicados subsídios adequados. Assim fortalecemos o ritmo fundamental da escuta da Palavra de Deus e enriquecemos o ritmo da oração.

O ritmo semanal das missas do domingo deve ser a base e o centro da vivência da quaresma. Nelas meditamos as grandes etapas da história da salvação e somos convidados ao conhecimento mais profundo de nós mesmos e a combater os nossos defeitos para celebrar a Páscoa com um coração renovado. Não esqueçamos a celebração do sacramento da reconciliação que revigora a nossa conversão.

Precisamos de cuidar atentamente do ritmo diário da oração. Neste exercício encontramos “a luz da alma”, a força interior que brota da presença e da protecção de Deus.

Jejum e partilha de bens. O jejum cultiva o desapego e convida à partilha com os necessitados No ano passado, recolhemos, da renúncia quaresmal, 32 mil euros que foram entregues, como estava prometido, para um projecto agro-pecuário de Nampula, Moçambique e para Caritas Diocesana. Este ano, vamos destinar a nossa partilha à reconstrução do Haiti, através do Instituto Missionário dos Monfortinos que foi duramente atingido pela tragédia do terramoto na relevante obra social e religiosa que tem a seu cargo nesse país. Através destes missionários, que prestam colaboração pastoral preciosa na nossa diocese, a nossa ajuda chega eficazmente às necessidades reais, tal como acontece com a Caritas.

Que o Santo Cura d’Ars nos inspire e proteja no caminho da conversão ao evangelho.

Santarém 12 de Fevereiro de 2010.

Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém


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