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Terça-feira ,7 Dezembro, 2021
Artigos de Opinião

Dignificar a política, estimar os políticos

Desqualificar o exercício da actividade política e dizer mal dos políticos em geral, de todos, sem distinções, considerando-os, apriori, só porque estão na política, suspeitos de todas as más motivações e de todo o tipo de práticas desonestas, tornou-se um discurso banal. Ao nível da conversa de rua, atinge facilmente os níveis do desprezo e do insulto. Mas mesmo os media alimentam a mentalidade, sobretudo pelo sublinhar obsessivo das falhas e o silêncio sobre os aspectos mais dignos e sacrificados da actividade política.

É óbvio que há, visivelmente, na política, actuações que merecem reprovação e por lá circulam personagens sobre quem é legítima muita suspeição. No entanto, generalizar e alimentar o preconceito populista antipolítica, ao ponto de este ir prosperando até sem necessidade de comprovação de factos que o sustentem, é um comportamento socialmente irresponsável e suicidário para a democracia.

Ainda mais na situação dramática em que nos encontramos, precisamos de ter na política gente competente, honesta e movida pelo serviço do bem comum, disponível para enfrentar as dificuldades, capaz de tomar as decisões difíceis, que certamente não poderão agradar a todos. Por mais altruísmo e espírito de serviço e responsabilidade social que se tenha, sem receber um mínimo de respeito e de compreensão, será difícil que os melhores se disponham a “exercer a arte tão difícil mas tão nobre da política”, nas palavras da Gaudium et Spes (que não hesita em afirmar que “a Igreja louva e estima a actividade daqueles que se dedicam ao bem da coisa pública e aceitam o peso desses cargos para bem de todos”). E, então, fica o campo todo entregue àqueles que menos se incomodam com as estigmatizações dos juízos populistas que classificam a política como um reino a-moral.

Estas, aliás, até acabam por desculpar (se não justificar) os comportamentos menos éticos. Onde se diz que não há moralidade nenhuma, então aí passa a valer tudo. O caminho tem de ser outro. É preciso dignificar a política, pois ela é uma actividade de serviço do bem comum”, dizia a Conferência Episcopal Portuguesa, no documento “A Igreja na Sociedade Democrática”, no ano 2000. Para logo acrescentar: “Nós, Bispos, na qualidade de pastores, manifestamos a nossa estima por todos os cristãos que se empenham profundamente nas tarefas políticas, como meio de contribuir para o bem comum e consideramos essa actividade como uma concretização da sua missão de cristãos, realização da missão da Igreja no meio do mundo”.

A valorização e dignificação da política passam, portanto, antes de mais, pela resistência activa ao discurso fácil, sem distinções, que denigre a política e enxovalha todo o político. Mas pedem também formas concretas de manifestar aos políticos que sinceramente buscam o serviço do bem comum respeito e encorajamento. Uma dessas formas será um esforço de compreensão das dificuldades e condicionantes que acarretam o exercício da função política numa democracia pluralista, assim como um conhecimento adequado dos limites de competências constitucionalmente estabelecidas para cada cargo político e das funções sociais que este deve servir. A política é a arte do acordo possível, exige muitas vezes compromisso, e pede sempre um exercício de prudência responsável, ao serviço duma convivência pacífica e serena. Tem, às vezes, que lidar com processos de co-alescência de novos consensos sociais, ainda em fase de avanços e recuos, longe de estarem estabilizados, onde há que respeitar as preponderâncias que, pelo sistema democrático, um lado ou outro vai conseguindo.

Autor: Padre Hermínio Rico

Texto Proposto: Padre Tiago Pires

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