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Terça-feira ,7 Dezembro, 2021
Entrevistas

Alberto Lages: ” A minha paixão pela música surgiu de uma forma natural”

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alagesEntrevista Alberto Lages, maestro da Banda Filarmónica Alcanedense.

Portal Alcanede (P A) – Já vamos falar em concreto da Sociedade Filarmónica de Alcanede (SFA), no entanto gostávamos de saber em primeiro lugar, quando e como surgiu esta sua paixão pela musica?


Alberto Lages – A minha paixão pela música surgiu de uma forma muito natural. Desde muito novo vivi rodeado de música. O meu pai era, ainda é, o maestro da filarmónica da terra onde nasci, Tangil concelho de Monção, tal facto proporcionou-me um acesso privilegiado ao mundo da música. Recordo como momentos mágicos aqueles em que ouvia com o meu pai as sinfonias de Beethoven, as grandes aberturas de Rossini e os concertos para clarinete de Weber e Mozart, este ultimo vezes se conta. Talvez a minha paixão pelo clarinete se deva a Mozart. Ao mesmo tempo, por volta dos meus nove anos tive o primeiro contacto com o clarinete, ainda me lembro com uma clareza extraordinária das primeiras lições dadas pelo meu pai num clarinete Cuesnon e do livro pelo qual dei as primeiras notas, L’ABC du Jeune Clarinetiste de Guy Dangain, dos duos em que tocava com o meu pai que alem de maestro era um excelente clarinetista. Julgo que a minha paixão pela música se deve essencialmente a toda esta vivencia familiar desde tenra idade.

P A – Para chegar ao topo de uma carreira musical são necessários sacrifícios?

Alberto Lages – Sim. É necessário abdicar de muita coisa que geralmente se gosta de fazer, como por exemplo deixar de ir à praia num lindo dia de sol par ficar a estudar… É uma questão de opção. É ainda necessário aquilo a que eu chamo “atitude de atleta de alta competição”. Fazer um trabalho diário para desenvolver as nossas capacidades. Tal como um atleta não faz a maratona sem correr uma ou duas vezes por semana, também um músico não fará bons concertos se não tiver um ritmo de trabalho diário que lhe permita manter-se em forma.

P A – O Maestro além do seu trabalho como professor, é membro de dois trios musicais e habitualmente toca nas melhores orquestras portuguesas: Orquestras da Gulbenkian, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra de Câmara de Sintra são exemplos disso. Sente que os Alcanedenses têm orgulho no seu percurso?

Alberto Lages – A minha actividade como musico profissional desenvolve-se fundamentalmente na Banda Sinfónica do Exército onde desempenho funções de primeiro clarinete solista e chefe de naipe dos clarinetes. Além da Banda do Exército sou professor de clarinete no Conservatório de Musica D. Dinis em Odivelas. Paralelamente a estas duas actividades e não esquecendo naturalmente a de maestro da Filarmónica Alcanedense colaboro com alguma frequência com as principais orquestras portuguesas, onde se salientam as mencionadas. Os dois trios, o Trio Divertimenti e o Trio Aulos Consort são a minha paixão pela música de câmara que alimento com um grupo de amigos. Se sinto que os Alcanedenses têm orgulho em tudo isto? Talvez. Devo salientar que desde o meu primeiro dia em Alcanede me sinto muito bem recebido e acarinhado. Isso, eu interpreto-o como um sinal de apreço e respeito por mim.

P A – Como é que surgiu a oportunidade de conduzir artisticamente a Sociedade Filarmónica de Alcanede?

Alberto Lages – Foi um convite da direcção da Filarmónica Alcanedense. Estávamos exactamente à nove anos a traz quando surgiu um convite encabeçado pelo Carlos Silva, que pertencia a direcção de então para fazer parte de um projecto que fundamentalmente fomentasse a evolução musical da banda. Foi uma oportunidade muito importante na minha carreira, pois possibilitou trabalhar de forma mais assídua a direcção, que era também um sonho antigo. De sublinhar o voto de confiança que o Lino, o Carlos, e o sr. César Martins, actual presidente da banda, me deram.

P A – Estamos a falar de uma colectividade com mais de 100 anos de história, cheia de tradições e com provas dadas. Sente de alguma forma o peso da responsabilidade ao dirigir a nossa banda?

Alberto Lages – Dirigir a Filarmónica Alcanedense representa sempre uma grande responsabilidade, como sabemos é uma senhora com mais de 100 anos que não nos deve deixar em momento algum desatentos. Por outro lado, quando se criam expectativas, por vezes altas, sinto que é responsabilidade minha estar a altura. Mas tudo isso representa para mim uma fonte de inspiração e motivação.

P A –  Qual é o segredo do sucesso de uma banda filarmónica?

Alberto Lages – Para mim reside numa coisa muito simples, manter viva a paixão pela música tudo o resto bem por acréscimo.

P A – Temos muitos jovens na SFA?

Alberto Lages – A maior percentagem são jovens, alguns com grande talento aos quais faço votos, se essa for a sua opção, de chegarem longe na música.

P A – Teme que, eventualmente um dia, se perca a tradição e que sobretudo os jovens deixem de se interessar pelas sociedades filarmónicas?

Alberto Lages – Não, de maneira alguma. Nunca houve tantos jovens interessados em estudar música e em fazer parte deste tipo de agrupamentos. Por outro lado o ensino da musica é hoje muito mais abrangente o que proporcionou uma grande afluência aos conservatórios e escolas de música grande parte oriundos das bandas. Repare-se no caso de Alcanede, á nove anos havia 1 aluno no conservatório hoje há 16. Além disso esta nova reforma do ensino da música veio possibilitar o acesso a um grande número de crianças. O agrupamento de escolas de Alcanede é um dos agrupamentos com mais alunos no Conservatório Jaime Chavinha em Minde. Isto são apenas alguns exemplos que em meu entender justificam bem um interesse maior pela música e consequentemente pelas bandas.  Pelo que nos diz a História, Alcanede sempre foi e sempre será um grande viveiro de músicos. Não foi no seio da Sociedade Filarmónica Alcanedense que surgiram duas bandas?

P A – Quando chegou a Alcanede, foi feito algum tipo de reestruturação interna da banda, quer a nível do reportório musical, quer ao nível elementos que já a constituíam?

Alberto Lages –  Ao nível dos elementos não, apenas pequenos ajustes de lugares, de forma a equilibrar os naipes segundo aquilo que era o meu conceito. Ao nível do reportório sim. Uma pessoa diferente tem necessariamente um projecto diferente e o reportório é uma parte importante desse projecto. Gradualmente mudei todo o reportório e sensivelmente a partir do segundo ano já não tocava nada da anterior fase da banda.

P A – Tendo em atenção os “novos tempos”, há uma preocupação constante em termos de ajustamento dos reportórios, olhando também para uma camada mais jovem de público?

Alberto Lages –  Sim. Actualmente o reportório não é mais o que era á 15, 20 anos atrás, temos compositores de grande nível a escrever para banda. Nesse sentido temos tido uma grande preocupação em nos mantermos actualizados tentando sempre na medida dos possíveis adaptar os nossos programas em função dos vários tipos de público, onde naturalmente esta incluído o público mais jovem.

P A – Estão sempre abertos á inscrição de novos elementos para a SFA?

Alberto Lages –  Sim bastando para isso preencher um formulário de inscrição.

P A – Recentemente, um elemento da nossa filarmónica, o Daniel Frazão foi distinguido com o 2º prémio (porque não houve primeiros lugares) no concurso a nível nacional «Jovens Músicos 2009» … O que sentiu o Maestro Alberto Lages?

Alberto Lages –  Fundamentalmente senti-me bem por dirigir uma banda que aos poucos vai crescendo e tendo jovens músicos, que se vão afirmando no panorama musical português.

P A – O mérito é todo do Daniel, mas também há aqui muito trabalho seu, decerto?

Alberto Lages – O mérito é todo do Daniel e das duas colegas que constituem o trio a Beatriz e a Mariza. São três jovens muito talentosos que podem chegar muito longe na música. Para mim como maestro, têm um significado muito especial porque o Daniel foi o primeiro aprendiz que eu introduzi na banda. Têm tido uma evolução estrondosa e pode chagar longe como clarinetista. Mas seria injusto não salientar aqui o trabalho do professor Hélder Gonçalves que os orientou na preparação para este concurso.

P A – Como é que, na prática funciona a parceria com o conservatório de música Jaime Chavinha de Minde?

Alberto Lages –  O Conservatório Jaime Chavinha de Minde tem conhecido nos últimos anos uma evolução que eu considero extraordinária tanto ao crescimento do nível de alunos como ao nível da qualidade do ensino. Foi nesse sentido que pensamos que seria importante para a formação dos nossos jovens músicos frequentarem o conservatório. A parceria que existe resume-se a incentivar os mais jovens a estudarem música de uma maneira mais séria direccionando-os para o conservatório. Por parte do conservatório temos tido a sua disponibilidade em nos facultarem quando necessário alguns instrumentos de percussão, nomeadamente a marimba e o vibrafone.

P A – Desde Maio deste ano, temos um CD da SFA, foi um sonho tornado realidade?

Alberto Lages –  Sim. Foi o nosso primeiro CD e nesse contexto é um marco importante na história da Banda. Está-nos a dar  uma visibilidade muito grande o que para nós é muito importante, pois faz-nos acreditar que em termos musicais é possível ir muito mais longe. Como diz o titulo Overture to a New Age, pretendemos que seja a entrada numa nova era, numa nova fase da banda. Digamos, que para nós este CD não é um fim mas sim um princípio.

P A – Como é que tem sido a aceitação do CD por parte do público em geral?

Alberto Lages –  Muito boa, praticamente já foram vendidos todos os CD’s o que para nós é extremamente gratificante e motivador levando-nos a pensar em novos projectos. Por outro lado temos tido referências elogiosas dos mais variados quadrantes.

P A – A Sociedade Filarmónica Alcanedense tem tido os apoios necessários?

Alberto Lages –  Tenho que distinguir aqui dois tipos de apoios. Por um lado o apoio dos Alcanedenses, incluindo a Junta de Freguesia que é francamente positivo, e por outro o apoio da Câmara Municipal de Santarém. Este último, para aquilo que é uma banda moderna com as exigências que são constantemente colocadas, considero que é francamente reduzido. Bem sei que vivemos dias difíceis em que a contenção orçamental é a palavra de ordem, que há exemplos em que o apoio é nitidamente inferior ou inexistente, etc,etc,etc… Mas também conheço realidades diametralmente opostas. O meu apelo é no sentido de uma maior atenção e sensibilidade no relacionamento com estas casas que continuam a depender em grande parte deste tipo de subsídios.

P A – Qual a média de concertos anuais?

Alberto Lages –  Cerca de 30 a 35, incluindo todo o tipo de saídas da banda.

P A – Gostava de deixar alguma mensagem para os Alcanedenses?

Alberto Lages –  Aos Alcanedenses gostava de deixar uma palavra de agradecimento pelo seu contributo para com a SFA, uma palavra de reconhecido respeito e admiração aos músicos e a todos quantos tem colaborado artisticamente com a banda pelo empenho que tem demonstrado e  por ultimo, um obrigado á actual ás anteriores direcções pela sua dedicação.

P A – Maestro Alberto Lages, muito obrigado pelas suas declarações ao www.portalalcanede.pt . Desejamos a si e á SFA as maiores felicidades.

Alberto Lages –  Obrigado, por esta oportunidade de dar a conhecer um pouco da realidade da Filarmónica Alcanedense e os maiores sucessos para vosso portal.

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