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Sexta-feira ,3 Dezembro, 2021
Artigos de Opinião

A terceira “Carta de Alcanede” – Por José Raimundo Noras

Antes de começarmos a perorar, mais propriamente, sobre o assunto que move esta crónica, deixamos um aviso. Quem não pode visitar a Mostra Bibliográfica sobre Alcanede e Pernes, que terminou no passado dia 10 de Janeiro, terá nova oportunidade. A mesma exposição rumará a Alcanede e a Pernes, levando às suas origens os manuscritos, os códices e os volumes diversos onde se foi escrevendo a história de tais lugares. Em Alcanede a mostra decorrerá no edifício da Junta. A “reinauguração do evento” está prevista para 8 de Fevereiro de 2014, pelas 16h., um sábado e contará, em conferência inaugural, com a participação da antropóloga Maria Antónia Amaral e dos escritores Joaquim do Vale Cruz e Mário Rui Silvestre. A exposição estará patente até 7 de Março. Depois rumará a Pernes em datas a anunciar.
Nas pesquisas que temos desenvolvido, para enquadramento destas actividades integradas nas Comemorações dos 500 anos do Foral de Alcanede e Pernes, “descobrimos” uma nova “carta de Alcanede” escrita por Padre António Vieira (1608-1697). Na realidade, já se conheciam duas “cartas de Alcanede”, do nosso “imperador da língua portuguesa”, publicadas nos séculos XIX e XX. A primeira missiva, publicada em 1827, cujo original se guarda na Torre do Tombo, data de 10 de Julho de 1679 e foi dirigida ao diplomata Duarte Ribeiro de Macedo. A segunda carta, remetida ao mesmo Diplomata, data de 17 de Julho, foi publicada em 1928 e o seu original guarda-se, em códice, na Biblioteca Nacional. Em ambas as missivas, António Vieira dirige ao seu amigo, sobretudo, preocupações sobre a política nacional e internacional do seu tempo. Quase não se refere aos motivos que o levaram a Alcanede, nem faz alusão às características do lugar, apesar de focar sempre o isolamento que sentia nessa vila, na “eremítica vida deste deserto”. “Nos montes de que está cercado soam os ecos de Lisboa”, queixa-se Vieira da falta notícias e dos atrasos do correio que chegava a Alcanede.
 

João de Melo Ataíde e Luís de Melo, na sua Nova Monografia de Alcanede exploraram estas cartas, dando a conhecer a um público bem mais vasto a passagem do insigne António Vieira pelas “cercanias da serra da Mendiga”. Equacionando esse “repouso do Padre António Vieira” por Alcanede em Julho de 1679, associaram-no à necessidade do clérigo se afastar das conspirações lisboetas, assim como aos bons préstimos do seu companheiro jesuíta Pedro Jusarte (ou Zuzarte). Este e António Vieira ter-se-ão recolhido em Alcanede em Julho de 1679, não estando claro os motivos que os levaram a escolher Alcanede, em vez de Santarém ou de Pernes, onde, à época, a Companhia de Jesus estava mais estabelecida.

Sabíamos que António Vieira também recebera em Alcanede duas cartas de Duarte Ribeiro de Macedo, às quais faz referência em carta posterior, no dia 28 de Julho de 1679, quando já se encontra nas Caldas da Rainha. Em Setembro desse ano, Vieira retornou a Lisboa, para nunca mais voltar, tanto quanto sabemos, à vila de Alcanede, “à beira serra”. Porém, em 31 de Agosto de 1679, António Vieira estava de novo nas “cercanias da Mendiga”, datando de Alcanede nova carta sua dirigida a Cosme III de Médicis, Grão Duque da Toscana. Esta epístola estava inédita, guardada no arquivo italiano de Firenze, sendo só agora conhecida graças à sua publicação na Obra Completa de Padre António Vieira, incluída, juntamente com as outras que já referimos, no IV volume do tomo I, coordenado por Mary del Priore e por Paulo de Assunção. De facto, esta “terceira carta de Alcanede” é particularmente importante por contribuir para o estudo da relação entre Cosme III e Portugal, mais concretamente por intersecção do próprio Vieira que advogava o casamento deste com a Infanta D. Isabel Luísa de Bragança. A carta consiste num parecer de Vieira, secundado por Pedro Jusarte, a Cosme III para que empregue o escolar Lopes de Ulhoa como lente na Universidade de Pisa. “Descoberta” esta “terceira carta de Alcanede”, não nos parece provável que tenham existido outras, até porque nos três volumes de cartas desta nova e exaustiva Obra Completa não surge mais nenhuma.
 

O Padre António Vieira repousou em Alcanede, refugiando-se do bulício da cidade e dos que conspiravam contra a sua pessoa, entre Julho e Agosto de 1679. Nessa vila, ao norte do Ribatejo, foi escrevendo, pelo menos, três cartas. De Alcanede para o mundo, primeiro para Madrid, depois para a Toscana, da pena do “imperador da língua portuguesa” correram palavras várias carregadas de anseios, de desejos, de preocupações ou da recomendação de um amigo. Enfim, essas cartas estarão “mais próximas dos homens do que de Deus”, revelando-nos todo um outro tempo de um Portugal restaurado que, novamente, se ia afirmando no mundo, um mundo a redescobrir sob a pena de Vieira.

José Raimundo Noras
Historiador

Carta AntonioVieira                                      Uma das cartas escritas pelo Padre António Vieira em Alcanede
 

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