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Quarta-feira ,19 Janeiro, 2022
Artigos de Opinião

25 da Abril em Alcanede

A Stôra Helena disse que tinha havido um reboliço em Lisboa, mas demonstrava um ar pouco crente da natureza da intentona. Haveria algo para mudar? Penso que todos nós, alunos no colégio que funcionava na casa das janelas verdes, situada na agora toponímica Rua da Saudade em Alcanede, ignorávamos o que significava uma revolução.

Tínhamos tudo… não víamos, não ouvíamos e não líamos. Era um colégio muito engraçado… com boas pessoas. O meu transporte escolar era uma Sirla roda 20 dobrável, comprada no Fialho. Segundo a propaganda estávamos num estado perfeito. Vamos recordar mais do que se passava aqui, na costa Oeste da Europa.

O meu pai foi para França de assalto, clandestino. Cá trabalhava numa pedreira onde perdeu o irmão mais novo, o Evaristo, por causa de um bloco que lhe entalou a cabeça no Pé da Pedreira, terminou a vida com 18 anos e sem qualquer apoio social para a família. Numa noite de Inverno estava sentado ao lume à luz da candeia com a minha avó Maria Rosário, quando o meu pai me veio dizer adeus. Não entendi nada para onde ia, era tudo segredo. Seguiu-se um silêncio absoluto, até que veio uma carta passados muitos dias. Tinha chegado! A viagem foi feita em camioneta de gado, a pé, de égua para passar rios e montanhas. A alternativa era: continuar a semear em terra alheia, desbastar pedras com picão, rebentar outras a tiro e sem qualquer segurança no ofício, subir e descer a serra dos Candeeiros de pasteleira por estrada esburacada.

O meu avô António Filipe dizia muito mal do Salazar, numa ocasião foi chamado a votar no único candidato da lista, não havia cá alternativas. Recordo-me de estar no café do Sr. Manuel Carvalho e, numa televisão a preto e branco, ver o funeral do Presidente do Conselho. Mais tarde, o Marcelo Caetano implantou as Casas do Povo e o meu avô ficou furioso por mais uma pagadilha, aquele também não prestava, dizia. Foi naquele avô que vi o primeiro político contestatário, aliás, eu nem sabia que havia política. Havia, desse facto tinha conhecimento, guerra nas Províncias Ultramarinas.

Os tiros, as rajadas de metralhadora, bombas que faziam tremer tudo, tinha um medo horrível. Muitas vezes passavam soldados a correr e a mandarem-se para o chão. Havia quem lhes quisesse dar comida, mas não podiam aceitar. Com o Vítor fui próximo do campo de tiro ver os canhões, carros de combate M47 “Patton” da EPC (Escola Prática de Cavalaria de Santarém), os que mais tarde assustaram Lisboa numa madrugada de Abril. Diziam-me que andavam a treinar para combater os turras nas colónias, e os turras, no meu entender, eram qualquer coisa demoníaca sem natureza humana, inimigos da Pátria. Ainda há pouco tempo fui à serra, ao local onde eram os alvos, próximo da Ermida de N.Sra. das Neves num lugar chamado cancela. Vi alguns vestígios: bidões e portas de carro metralhadas, algumas crateras e estilhaços de granadas.

O “Elvis”, rapaz muito à frente, ficou lá em Moçambique. Os soldados tinham feito uma roda e andaram a jogar uma granada de mão em mão até que o engenho caiu. Mais tarde veio uma urna com algo lá dentro que diziam ser o corpo, nunca ninguém viu. Melhor seria ter ficado em França para onde foi de assalto com o pai, uns anos antes. Alguns emigravam para não ir à tropa, ele fez o contrário. Era uma referência o “Elvis”, trouxe de França a primeira bola de cautchu que vi, pesava imenso quando molhada. Anteriormente só conhecia a bexiga de porco para jogar à bola.

Foi por tudo isto, com certeza, e por muito mais que outros acrescentarão a este mote, que a revolução de Abril foi um fantástico dia de Primavera.

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